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Akita UM SÓ NOME, DUAS PAIXÕES Um congresso mundial, inédito na cinofilia, define o Akita "americano" como incompatível com os rumos desejados pelo Japão, país de origem da raça.
O que reuniu aqueles homens foi uma paixão em comum. Ou melhor, duas diferentes paixões nascidas de uma só: o Akita. Essa raça, pelos desígnios do destino e da vontade humana, nas últimas décadas foi dividida em dois tipos distintos. E levou aqueles congressistas ao mais importante encontro jamais promovido em função de uma raça canina. "Nunca vi nada parecido", assegurou a Cães & Cia o experiente membro da comissão de padrões oficiais da Federação Cinológica Internacional (FCI), Raymond Triquet.
A
história começou com o Akita quase extinto pelas guerras que afligiram o Japão.
E com a aparência descaracterizada pela mestiçagem com cães trazidos à ilha por
estrangeiros, inclusive pelos exércitos que por lá passaram. Exibia
características nada orientais, como máscara negra, focinho curto e físico
robusto, transmitidas por molossos (a exemplo dos Mastins e Mastifes) e pela
raça Pastor Alemão.
Foram exemplares assim que chegaram aos Estados Unidos no fim da década de 40. A aparência intimidatória deles - atributo valorizado pelos ocidentais nos cães de guarda -, agradou. A maior potência cinófila ocidental deixou-se conquistar pelo Akita ocidentalizado e tratou de multiplicá-lo e aprimorá-lo, segundo a sua própria ótica. Alguns anos depois, o Japão começou um trabalho para recuperar o aspecto oriental perdido do Akita. Era a década de 50. As diretrizes dessa correção de rumo foram passadas boca a boca, de criador japonês a criador japonês. Mas não foram introduzidas no padrão oficial, mantido na versão inicial de 1938. Poucos ocidentais tiveram acesso às novas normas em viagens ao Japão ou ouvindo-as de algum japonês vindo ao ocidente. E assim contribuíram para a propagação delas nas regiões onde viviam. Ambos os tipos de Akita se espalharam pelo mundo, encontrando seguidores entusiastas. O Japão e os Estados Unidos, situados em extremos opostos do planeta, dedicaram-se com vigor à construção dos seus plantéis, por cerca de quatro décadas. Trabalharam individualmente. Estavam separados por uma extraordinária distância geográfica e também pela diferença de línguas e por uma grande autonomia cinófila. Os caminhos que trilharam foram opostos, curiosamente delimitados por padrões oficiais semelhantes. "Como japonês, me sinto à vontade para afirmar que uma das maiores causas do aparecimento dos dois tipos de Akita está no próprio padrão da raça, já que os japoneses nunca se preocuparam em detalhar nele as informações", diz Kichiro Maki, vice-presidente do Clube Paulista do Akita, um dos pioneiros na criação da raça no Brasil, divulgador do tipo oriental entre os criadores brasileiros e responsável por seguidas importações do tipo japonês, além de porta-voz dos novos rumos japoneses. Resultado da Babel cinófila, a duplicidade de rumos do Akita pós-guerra transformou-se em dois cães fisicamente diferentes. E à medida que a dimensão das diferenças crescia, uma indagação se tornava mais freqüente: seria o Akita uma só raça com dois tipos, ou duas raças com um nome só? Na pujante cinofilia americana, a população de Akitas, predominantemente mascarada, tornou-se bem maior do que a do país de origem. Em outras nações filiadas à FCI, seguidoras da criação japonesa, uma parte dos criadores dedicava as suas energias e o coração ao Akita oriental e a outra parte, ao ocidentalizado. Percebendo que o padrão não era muito claro, os criadores japoneses resolveram aprimorá-lo em 1992. Acrescentaram nas penalizações a falta de dentes, problema que estava ocorrendo; a cor malhada, definindo que manchas brancas são toleradas, mas a ausência delas é preferível; e a máscara preta, símbolo maior da falta de autenticidade japonesa, que passou a ser considerada falta. A medida, divulgada pela FCI, atingiu os mais de 70 países filiados a ela e alcançou numerosos amantes do Akita tipo americano, que viram condenado o cão ao qual haviam dedicado muitos anos de suas vidas. Ecoou também no Brasil. "Decepcionado, o dono de um Akita com máscara negra que penalizei em 1992 só não entrou com representação contra mim por constatar que o fizera devido ao novo padrão", relembra Anita Soares, juíza de todas as raças, atual presidente do Clube Paulista do Akita e criadora da raça há oito anos pelo Antiques Place Kennel, em São Paulo. "Fiquei tão indignada ao saber que meus Akitas mascarados não poderiam mais receber título de campeão que escrevi à FCI", desabafa Maria Ercília Peverley, criadora há nove anos pelo Hillmora Kennel, de Juiz de Fora. "Imagine minha decepção quando fui surpreendida pelo novo padrão, depois de adquirir um macho mascarado para acasalar com as minhas quatro fêmeas sem máscara", reclama Nairangela Ferreira Zardo, criadora de Akitas há três anos, pelo Canil Magia, de Curitiba. Casos como esses aconteceram por toda parte. VER PARA CRER Cinco anos depois de provocarem a sacudida, os japoneses realizaram o grande congresso. O primeiro dia foi dedicado à aproximação dos participantes, com as respectivas apresentações e um passeio turístico por Tóquio. No segundo, todos foram a uma exposição especializada, organizada pelos japoneses para mostrar aos congressistas como estava a raça no país. Os 120 Akitas expostos impressionaram. Loren Egland, um dos representantes do Akita Club of America, nos EUA, onde há a maior criação de Akitas do mundo - mais de 90% com o tipo americano e a maioria deles com máscara negra -, declarou: "Eu costumava ser contrário a algumas decisões dos japoneses em relação à raça, mas enxerguei naqueles Akitas diferenças bem maiores do que a simples ausência de máscara apresentada pelos de ‘tipo japonês’ em meu país".Ponto a favor dos japoneses. Mas foi preciso Egland ir ao Japão, para constatar o fato. Um privilégio que muitos dos envolvidos com o Akita não tiveram, sendo que parte deles ainda tenta entender a mudança. "Foi uma grande falta de respeito: afinal será que os mascarados são menos Akitas que os outros?", pergunta Nairangela, expressando um sentimento comum no mundo inteiro.No terceiro dia do congresso, o destaque foi para a situação internacional da raça. Os convidados ouviram dos japoneses a determinação de prosseguir com o programa de purificação. E dos participantes dos demais países, relatos dando conta de que a maioria dos filiados à FCI está bem afinada com os planos do Japão. Cresceu, assim, a percepção da principal mensagem do congresso: os dois Akitas já não podem mais ser encarados como uma única raça; o de tipo japonês não é mais compatível com o do tipo americano. Só resta, portanto, a formação de uma nova raça a partir do tipo americano. TORCIDA Quem espera ver o Akita de tipo americano reconhecido como raça à parte, conta com gente importante na torcida. "As grandes diferenças entre os tipos de Akita na atualidade são suficientes para justificar a criação de uma nova raça", concorda o diretor do Club Italiano delle Razze Nordiche e criador de Akitas há 20 anos, Andrea Bordone."Tornar o Akita do tipo americano uma nova raça seria uma compensação para quem o vem criando há anos", opina Anita Soares. O presidente da comissão de padrões oficiais da FCI, Jean-Maurice Pachoud, por exemplo, ao responder à solicitação da criadora brasileira Maria Ercília, posicionou-se pessoalmente de forma favorável à criação de outra raça a partir do tipo americano. Ponderou, porém, que há outras raças européias criadas de forma distinta pelos EUA, e que é preciso encontrar uma solução geral. Reconhecer todas seria inviável. O caminho a ser percorrido promete ser longo. "Cabe aos Estados Unidos adotar outro nome para a raça, submetê-lo à aprovação do Japão e, então, pedir que ela seja reconhecida", respondeu Pachoud na carta a Maria Ercília. Mas os americanos estão acostumados a chamar de Akita o tipo que produzem e amam. "Não será fácil obter a adesão da maioria dos sócios do nosso clube", estima Egland. A criadora Linda Yelvington, de Columbia, em Kentucky, EUA, é um exemplo dos desdobramentos que esse caso pode ter. Ela cria os dois tipos há dezoito anos e não apóia a idéia, já que não viu até agora grandes diferenças entre os tipos. "O primeiro número da revista especializada que lancei em junho, The Akita Voice, é todo dedicado ao debate da divisão da raça e divulga uma pesquisa na qual 85% dos mais de 700 criadores consultados são contra".A mobilização ocorre também no Brasil. Em maio passado, foi fundado o clube The Akita Association, por Maria Ercília. "Nosso objetivo é conseguir a aceitação dos Akitas mascarados por toda a cinofilia", declara ela. Enquanto os amigos do Akita ocidental agem para perpetuá-lo, o programa de orientação do Akita japonês progride. O procedimento é lento e gradativo. "Não mudem as coisas da noite para o dia. Nós japoneses demoramos 40 anos para obter o típico Akita japonês", disse Toyosaku Kariyabu, em 1995, na convenção na Alemanha. O próximo passo proíbe utilizar exemplares mascarados nos acasalamentos. Sua implementação está prevista para o ano que vem, conforme foi determinado em 1992. Possíveis mudanças no padrão poderão torna-lo mais detalhado quanto a algumas características físicas, como o formato da extremidade dos olhos e a angulação das pernas traseiras. "A angulação deverá ser especificada em 145 a 150 graus, pois só assim é possível o típico andar saltitante da raça", prevê Anita. "Existem grandes possibilidades de o JKC organizar um segundo evento para avaliar essas alterações", informa Bordone. Adaptar-se à realidade é o que resta ao comprador e ao criador bem intencionado. No Brasil, a maioria dos Akitas segue a estética japonesa, mas muita gente aprecia o tipo americano. O ideal é encarar os dois tipos como raças distintas, acostumando a vista a perceber as diferenças, valorizando-as, e não os cruzando entre si para manter bem definidas as características de ambos. REPRESENTANTES DO AKITA NO MUNDOItália: "Na Itália é praticamente impossível encontrar, o Akita do tipo americano. Já na década de 80, alguns criadores italianos entenderam que nem todas as características do Akita ideal estavam especificadas no padrão. Importamos Akitas e trouxemos juizes do Japão para julgar exposições, traduzimos artigos de revistas e disseminamos a maneira correta de criar".Andrea Bordone, representante da Itália no congresso.México: "Apesar de sermos filiados à FCI, praticamente só existe o Akita do tipo americano por aqui. Para nós, a única saída foi criar a variedade "Akita Americano" para que ele pudesse participar das exposições. Se tivéssemos de eliminar as características americanas dos nossos Akitas, acabaríamos com todo o plantel. Por isso queremos a aceitação do tipo americano como uma variedade."Juan Lozada, presidente do Akita Club de Mexico. Brasil: "O Brasil
encontrou-se em uma situação bastante favorável em relação a vários países do
mundo com a mudança do padrão, em 1992. Pelo menos 90% dos nossos Akitas são do
tipo japonês e a situação continua melhorando".Kichiro Maki, representante do França: "Na França, desde a década de 80, todos os Akitas têm de passar pela avaliação de um juiz aos 12 meses, para receber seu registro definitivo. Se tiver máscara, o pedigree não é confirmado. Na época, criadores do tipo americano entraram com uma representação contra a decisão na FCI. Não conseguiram nada".Monique Bartolozzi, presidente do Club Français des Chiens Nordiques, representante da França no congresso. Estados Unidos: "Costumava ser contrário a algumas decisões dos japoneses em relação ao Akita. Mas depois que estive no congresso e vi os cães de lá percebi que as diferenças são muito nítidas. Acho que a solução é a consolidação de uma nova raça".Loren Egland, representante dos EUA no congresso.
CBKC n° 255b, de 6/6/94. FCI n° 255/GB, de 16/7/92. Nome no país de origem: Akita-Inú. Utilidade: Guarda. 2) Manchas brancas são toleradas, mas a ausência delas é preferível. 3) Medo. 4) Prognatismo superior ou inferior. 5) Língua manchada. 6) Características de sexualidade reversa. 7) Íris de cor clara. 8) Falta de dentes. 9) Cauda curta. 2) Cauda pendente. 3) Pêlos longos (peludo). |
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